Biomedicina

A NFL Tem um Problema com Tratamentos com Células-Tronco

Atletas profissionais estão recebendo injeções de células-tronco para acelerar a recuperação de lesões. Críticos nomearam a técnica de placebo high-tech.

  • Quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
  • Por Antonio Regalado
  • Tradução por Elisa Matte (Opinno)


Imagem: Quarterback da NFL Peyton Manning teria recebido um tratamento com células-tronco para o pescoço, em 2011.

Atletas de elite fazem o que for preciso para vencer. Recentemente, isso tem significado receber uma injeção de suas próprias células-tronco.

Os tratamentos, desenvolvidos ao longo dos últimos oito anos, normalmente envolvem a extração de uma pequena quantidade de medula óssea ou de gordura de um jogador e depois a injeção dessas células em uma lesão em uma junta ou tendão para incentivar a regeneração dos tecidos. A medula óssea contém células estaminais capazes de gerar novas células sanguíneas, cartilagem e osso.

Embora os tratamentos tenham se transformado em uma indústria multimilionária, alguns médicos dizem que não há evidência concretas de que eles realmente acelerem a cicatrização. Em um relatório divulgado na semana passada, pesquisadores de políticas públicas da Universidade Rice criticaram o papel da Liga Nacional de Futebol (NFL) na promoção de tratamentos "não provados" para o público. Alguns jogadores, incluindo Peyton Manning dos Denver Broncos e Sidney Rice, que agora está aposentado, mas que ganhou um Super Bowl com o Seattle Seahawks no ano passado, supostamente foram ao exterior para receber tratamentos com células-tronco e outros profissionais atuaram como porta-vozes para clínicas americanas que os oferecem.

Os pesquisadores da Rice, Kirstin Matthews e Maude Cuchiara, dizem que a NFL deve criar um painel independente e financiar pesquisa para descobrir se os tratamentos com células-tronco realmente funcionam, similar ao que foi feito depois de a instituição enfrentar críticas sobre concussões e lesões cerebrais. "Eu acho que eles deveriam ser mais pró-ativos. Eles deveriam estar à frente dessa vez", diz Matthews.

Sports Illustrated relata que centenas de jogadores de futebol americano têm recebido tratamentos com células-tronco, com muitos deles viajando para o exterior para receber tratamentos que não oferecidos nos Estados Unidos. Mas não só os jogadores de futebol americano que os estão experimentando. Há relatos de que o tenista Rafael Nadal está passando por tratamentos com células-tronco para sua dor nas costas e as injeções também estão sendo procurados por jogadores de futebol e atletas do ensino médio.

A NFL não respondeu às perguntas do MIT Technology Review. Os médicos que oferecem os tratamentos dizem que eles são promissores e que devem ter uma chance. Outros dizem que não há dados suficientes. "Qualquer uma dessas injeções tem efeito placebo", diz Freddie Fu, um cirurgião ortopédico que é presidente de medicina esportiva no Centro Médico da Universidade de Pittsburgh e o médico principal da equipes de esportes da escola. "Nós não sabemos o que estamos injetando. Nós realmente não sabemos o que exatamente ele faz, biologicamente".

Cirurgiões ortopédicos esperam, um dia, utilizar células-tronco para regenerar cartilagem e outros tecidos perdidos. Mas pensamentos positivos, e lucros, passaram à frente dos fatos, diz Fu. "Há muito marketing na ortopedia no momento. Eu diria que 15 a 20 por cento dos tratamentos não são eficazes", diz ele.

Diferentemente e um medicamento, que é testado por anos e, então, avaliado por especialistas e pela Agência Americana de Regulação de Alimentos e Medicamentos (FDS) antes de chegar o mercado, os tratamentos de medula óssea oferecidos nos EUA não estão regulamentados.

Em muitas clínicas esportivas privadas e alguns centros médicos acadêmicos, esses tratamentos se tornaram rotina. Kenneth Mautner, diretor de cuidados primários em medicina esportiva na Universidade Emory e médico da equipe para seu departamento de atletismo, diz que realiza cerca de 2-4 injeções de medula óssea por semana. "Eu vou ser o primeiro a dizer que é um procedimento novo", diz ele. "As evidências de estudos em humanos é muito fraca neste momento".

Ainda assim, Mautner diz que acha que está vendo sucesso em alguns pacientes e que há muita demanda. "Temos pacientes que têm os recursos financeiros e que querem voltar mais rápido, antes de a literatura pode apoiar o tratamento", diz ele. Uma injeção de medula óssea para uma lesão esportiva custa cerca de US$ 6.000 e não é coberta pelo seguro.

"A demanda está explodindo", diz Mitchell Sheinkop, um médico da área de Chicago que diz ter injetado medula óssea nos joelhos e quadris de 400 pacientes nos últimos dois anos, em associação com uma empresa conhecida como Regenexx com sede em Colorado. Ele diz que acha que os tratamentos estão permitindo que alguns pacientes adiem a substituição do quadril ou do joelho.

Chris Centeno, o médico por trás da Regenexx, diz que é um erro aplicar os mesmos padrões de evidências para tratamentos de medula óssea que são exigidos para novos medicamentos. "A abordagem da universidade tem a vantagem óbvia de ter evidência primeiro, mas o problema óbvio de ser um processo lento e hiper-caro de traduzir em terapias para os pacientes", diz ele.

Mas, Fu pergunta, e se as injeções não funcionarem? Elas podem devorar enormes quantidades de dinheiro por anos até que os médicos gradualmente passarem para outra coisa. Ele observa quantos jogadores da NFL costumavam respirar oxigênio nos bastidores, até perceberem que não estava adiantando de nada. Agora tanques de oxigênio são vistos com menos frequência em eventos desportivos, diz Fu.

Os autores da Rice dizem que o que os incomoda é o papel que os jogadores da NFL tiveram na promoção tratamentos dos não aprovados. Uma clínica dos Estados Unidos, SmartChoice Stem Cell Institute, diz que assinou contrato com o ex-linebacker da NFL Tom McManus para ser seu porta-voz. Enquanto isso, clínicas que oferecem procedimentos no exterior, como o Precision Stem Cell, usam imagens de jogadores, incluindo Rolando McClain, agora do Dallas Cowboys, e promovem relatos da mídia de jogadores que receberam o tratamentos.

Nossos pacientes estão lendo isso e dizendo: "Nós queremos o que esse cara tem", diz Shane Shapiro, professor assistente de cirurgia ortopédica na Mayo Clinic, na Flórida.

Shapiro está realizando um teste com tratamento de medula óssea em cerca de 25 idosos com joelhos artríticos. O processo é semelhante ao que está sendo oferecido por clínicas particulares. Após a obtenção de medula óssea através de uma biópsia, ela é centrifugada numa para concentrar as células. Ele diz que consegue obter cerca de 40 milhões de células - apenas uma pequena fração delas são células-tronco. Para criar uma situação cientificamente controlada, cada paciente recebe duas injeções: medula óssea em um joelho e um placebo de água salgada no outro.

Vai levar ainda mais um ano para saber os resultados. Nesse meio tempo, Shapiro diz que se afastará de atletas que querem pagar pelas injeções. "Eu não me senti confortável em cobrar sem saber se o tratamento realmente funciona", diz ele.

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