Biomedicina

Um Ratinho Com o Mesmo Tipo de Câncer que Você

Por US$ 12.000, uma empresa implanta o câncer de um paciente em roedores e testa medicamentos neles.

  • Quarta-feira, 13 de agosto de 2014
  • Por Alexandra Morris
  • Tradução por Elisa Matte (Opinno)


Imagem: Tubo de ensaio: tumores humanos irão crescer neste rato, que não tem sistema imunológico.

Em um laboratório em Baltimore, camundongos sem pelos mantidos em prateleiras cheias de caixas de plástico são identificados com cartões amarelos, cada um com o nome de uma pessoa que luta contra o câncer. Estes camundongos são "avatares" para o câncer - os tumores irregulares visíveis sob sua pele vêm de pacientes reais.

Os animais servem como tubos de ensaio vivos e personalizados. Cada camundongo irá, enfim, ser tratado com um medicamento diferente e seus tumores serão medidos. Resultados que mostram qual medicamento funcionou melhor serão enviados de volta para o médico que está tentando tratar um caso difícil de câncer.

Esta tecnologia é uma grande novidade para a medicina personalizada que está sendo desenvolvida pela Champions Oncology. A empresa, com sede em Nova Jersey e Maryland, começou a oferecer camundongos avatar diretamente aos pacientes a um custo de US$ 10.000 a US$ 12.000. As seguradoras ainda não pagam pela tecnologia, que continua sendo experimental.

No serviço que a Champions está vendendo, os médicos primeiro removem um pedaço do tumor do paciente durante uma cirurgia ou biopsia. Em seguida, enviam-no para a empresa, onde será implantado sob a pele de um rato imuno-deficiente. Devido à deficiência imunológica dos roedores, o tumor humano cresce. Outros pedaços podem ser removidos e implantados em outros camundongos.

Os dados resultantes podem potencialmente salvar vidas, já que a escolha de qual medicamento prescrever para um determinado paciente com câncer é muitas vezes feita com base no "achismo" ou na tentativa e erro. "Em geral, os medicamentos que damos aos pacientes têm maior chance de não funcionar do que de funcionar", diz Justin Stebbing, oncologista do Imperial College London que esteve envolvido nos estudos médicos da tecnologia da Champions. Os resultados obtidos com camundongos personalizados, diz ele, "dão aos pacientes uma camada adicional de segurança".

Os pequenos avatares são parte de um esforço mais amplo de realizar experimentos com os tumores das pessoas fora de seus corpos. Alguns pesquisadores criaram moscas da fruta que possuem as mesmas mutações genéticas que pacientes. Outra tecnologia, ainda em desenvolvimento, procura captar células tumorais da corrente sanguínea de uma pessoa e, então, cultivá-las e testá-las em placas (veja "A Laboratory for Rare Cells Sheds Light on Cancer"). Indo ainda mais longe, pesquisadores têm planos para cultivar órgãos em miniatura, com um sistema imunológico igual ao do paciente (veja "Building an Organ on a Chip").

Don Ingber, diretor do Instituto Wyss para Engenharia Inspirada na Biologia da Universidade Harvard, diz que essas abordagens fora do corpo enfrentam alguns desafios semelhantes. Por um lado, as células tumorais variam tanto que não é se tem certeza que o tumor do camundongo é o mesmo da pessoa. Além do mais, o sistema imunológico está intimamente envolvido na resposta do corpo ao câncer, mas esses camundongos não possuem sistema imunológico. "Eu acho que o problema real aqui é que, no fundo, [o avatar] ainda é um camundongo", diz ele.

Champions, fundada em 2007, vem cultivando tumores de mais de 350 pacientes com sucesso, diz o presidente da empresa Ronnie Morris. Em junho, a empresa disse que vai colaborar com a Escola de Medicina Icahn de Monte Sinai, em Nova York, para criar avatares para mais 100 pacientes com câncer de mama. "De forma geral, parece produzir dados muito convincentes e preditivos, por isso lhe diz se o tratamento vai funcionar antes de esses medicamentos caros e tóxicos serem administrados", diz Stebbing, que testou a tecnologia com pacientes que sofrem de formas raras ou estranhas de câncer.

Nem todo implante funciona. Em cerca de 30 por cento dos casos, a Champions não conseguiu cultivar o tumor do paciente em camundongos. Mas, a maior limitação dos avatares é que os tumores crescem nos ratos mais ou menos na mesma velocidade em que crescem em uma pessoa. Isso significa que os avatares não são úteis para pacientes que precisam ser tratados logo, como costuma ser o caso. Morris diz que leva de quatro a seis meses para cultivar os tumores, tratar os ratos, e enviar um relatório aos médicos.

Em um estudo que Stebbing publicou em abril na revista Cancer, por exemplo, Champion gerou avatares para 22 pacientes com sarcoma avançado. Mas nove dos pacientes morreram antes que de os resultados ficarem prontos. "Alguns meses após a sua cirurgia ou biópsia, eles recebem quimioterapia e não resistem", diz Morris. "Nós construímos o avatar, mas o paciente não pôde usá-lo".

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