Comunicação

Como Lugares Remotos Podem, Sozinhos, Conseguir Sinal de Telefonia Celular

Com números de telefone suecos e uma estação base presa a uma árvore, uma aldeia remota da Indonésia gere sua própria empresa de telecomunicações.

  • Quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
  • Por David Talbot
  • Tradução por Elisa Matte (Opinno)

Imagem: Puxadinho de Rede: Nas terras altas de Papua, na Indonésia, homens usam cordas para puxar uma estação base para o topo de um pinheiro.

A quatro horas de carro do ponto mais próximo com cobertura de celular nos planaltos remotos de Papua, na Indonésia, um novo tipo de rede de telecomunicações estilo guerrilha funciona, ainda que proibida, usa uma estação base barata amarrada à copa de uma árvore.

A tecnologia poderia dor origem a um novo modelo de cobertura móvel de "última milha" autogerida nos lugares mais difíceis de alcançar do mundo, onde o modelo tradicional (top down) de negócios das telecomunicações não funciona.

O projeto foi criado por uma equipe da Universidade da Califórnia, Berkeley. A rede resultante agora é operada por uma pequena empresa de telecomunicações independente dirigida por uma ONG local, com um laptop para cobranças locais e uma conexão via satélite com o resto do mundo. A rede conta com números de telefone suecos porque nenhuma empresa de telecomunicações local conseguiu fornecê-los.

"É uma telecom em uma caixa (in-a-box) que colocamos em uma árvore", diz Kurtis Heimerl, um desenvolvedor da Range Networks e um estudante de graduação da Universidade de Berkeley, que liderou o projeto. "É uma demonstração de que essas populações podem gerir de forma sustentável e rentável suas próprias redes. Nós não precisamos que as telecoms façam isso, essas comunidades podem fazer isso sozinhas. "

A aldeia onde a rede está instalada fica nas terras tropicais altas de Papua - uma região onde o povo indígena evitou o contato com os ocidentais até que os cientistas se depararam com eles em 1938.

O projeto foi construído em parte com a infraestrutura existente: um pequeno gerador de energia hidrelétrica e uma antena parabólica que fornecia conectividade à Internet para uma escola local. A isso, o grupo de Berkeley acrescentou uma estação base para conexão de celular local, uma bateria para uso à noite, um roteador Wi-Fi para um hot spot de Internet local e um sistema de cobrança.

O projeto começou suas operações este ano com um investimento inicial de USD$ 10.000. Tem 187 assinantes de celular e uma média de USD$ 830 por mês em receita (incluindo USD$ 368 em lucros). Essa empresa oferece vários empregos, incluindo três para as pessoas que vendem créditos para o uso da antena.

Embora os pesquisadores digam que têm aprovação verbal de figuras de alto nível do governo indonésio para rodar o projeto, não há uma licença formal. Acesso legal ao espectro disponível - sem precisar de muito capital adiantado para uma licença - será crucial para a expansão do conceito, Heimerl acrescenta.

Ed Cutrell, que administra um grupo de pesquisa de tecnologia para mercados emergentes no Laboratório de pesquisa da Microsoft na Índia, diz que o trabalho de Heimerl é uma demonstração chave de como trazer conectividade para as áreas mais remotas do mundo. "Sua pesquisa está trazendo à tona a possibilidade de conectar milhões de pessoas que simplesmente estão muito remotas e dispersas para ser de interesse para as empresas de telecomunicação", diz Cutrell.

O sistema inclui alguns elementos de "engenharia caipira", diz Cutrell. "Eles simplesmente puxaram uma estação base para o topo de uma árvore e a amarraram com uma corda e agora eles têm um sinal."

Mas também apresenta algumas novidades técnicas. Uma delas é uma estratégia de economia de energia que permite aos usuários gerir quanto o sistema é usado à noite. Normalmente, uma empresa de telecomunicações operando uma estação base em uma área remota iria economizar custos com energia (muitas vezes obtida através da queima do diesel) desligando o sistema durante a noite.

O sistema do grupo de Berkeley é mantido em um "modo de hibernação" de baixo consumo de energia durante a noite e os usuários podem ligá-la. Tudo que eles precisam fazer para fazer uma chamada ou enviar uma mensagem no meio da noite é visitar um dos três aparelhos sem fio montadas em locais centrais e apertar um botão vermelho para "acordar" a estação base. A entrada de chamadas ou mensagens de texto também "acorda" o sistema, mas a chamada ou mensagem é atrasada em 20 segundos, enquanto o amplificador de potência liga, permitindo que um sinal se torne disponível. Isso proporciona disponibilidade 24 horas, poupando cerca de metade da energia em comparação com deixar o sistema ligado a noite toda, diz Heimerl.

Em todo o mundo, centenas de milhões de pessoas, sobretudo em áreas rurais remotas, não têm sequer cobertura básica da rede de celular. E grandes operadoras sem fio - como a Telkomsel da Indonésia - são, muitas vezes, incapazes de criar um projeto para servir tais áreas. Em alguns casos, estações base supereficientes podem ajudar na rentabilidade, em especial na redução do consumo de energia (veja "Uma Minúscula Operadora de Telefonia Celular Cria Raízes na África Rural"). Mas onde as empresas não conseguem ver oportunidades de negócios "a única solução que encontramos foi deixar as comunidades fornecer a cobertura elas mesmas", diz Heimerl. Ele já está planejando projetos em outras áreas, incluindo Filipinas e Paquistão.

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