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A Caro Paradoxo da Tecnologia de Saúde

Em todos os setores menos um, a tecnologia torna as coisas melhores e mais baratas. Por que a inovação aumenta o custo dos cuidados com a saúde?

  • Segunda-Feira,09 de Setembro de 2013
  • Por Jonathan S. Skinner
  • Tradução por Elisa Matte (Opinno)


Imagem: Big Medicine': Um paciente é posicionado para receber a terapia de feixe de prótons em um instituto em Boston. Os dispositivos utilizam um feixe de radiação para destruir o tecido canceroso.

Como economista que estuda a saúde, acho que é difícil saber se devo acolher ou temem novas tecnologia. Os cirurgiões podem substituir uma válvula cardíaca por uma de plástico ou metal que se desenrola depois de passar or artérias - reparos que eram feitos através de cirurgias de peito aberto. Medicamentos contra o câncer personalizados prometem tornar doenças fatais tratáveis. Ao mesmo tempo, é lamentavelmente comum ouvir projeções de um Armageddon fiscal conforme gastos com saúde arrastam o governo federal dos EUA para as dívidas e consome qualquer aumento salarial de um americano comum. Mesmo a recente desaceleração no crescimento da despesa simplesmente adia a data inevitável de quando a Medicare vai declarar falência.

Talvez você se surpreenda ao saber que os economistas concordam sobre o porquê de as perspectivas fiscais para os cuidados com a saúde serem tão tristes: a causa é o contínuo desenvolvimento e difusão de novas tecnologias, quer se trate de novos medicamentos para o tratamento da depressão, dispositivos de assistência ventricular esquerda ou desfibriladores implantáveis.

A tecnologia não aumenta preços em outras partes da economia. Melhorias em computação fornece produtos melhores a preços mais baixos e os automóveis são também um bom exemplo: depois do ajuste pela inflação de preços ao consumidor, um Volkswagen Jetta 1988, igual ao meu, seria vendido novo por 22.600 dólares, mais do que o preço de tabela de um modelo 2013 novo. E eu pegaria o Jetta 2013 qualquer dia, é um carro muito melhor (o meu antigo Jetta não tinha nem um cinto de cintura).

Em pesquisa com Amitabh Chandra da Escola Kennedy de Governo de Harvard, financiada pelo National Institute on Aging, eu tenho estado intrigado sobre a razão pela qual avanços em tecnologia médica de ponta levam os EUA a gastar mais por pessoa em saúde do que qualquer outro país do mundo (veja "Precisamos de uma lei de Moore para a Medicina"). Nós criamos duas hipóteses básicas da causa. O primeiro é uma estonteante variedade de tratamentos diferentes, alguns que fornecem enorme valor para a saúde por dólar gasto e alguns que oferecem pouco ou nenhum valor. O segundo é um generoso sistema de seguro (privado e público) que paga por qualquer tratamento que, obviamente, não prejudique o paciente, independentemente de quão eficaz ele é.

Criamos três "caixas" de tratamentos, ordenados de acordo com seu benefício para a saúde por dólar gasto. A categoria com o maior benefício inclui antibióticos de baixo custo para infecção bacteriana, um gesso para uma fratura simples, ou aspirina e betabloqueadores para pacientes com ataque cardíaco. Nem todos os tratamentos nesta categoria são de baixo custo. Medicamentos anti-retrovirais para pessoas com HIV podem custar USD$ 20.000 por ano, mas eles ainda são altamente eficientes porque eles mantêm os pacientes vivos, ano após ano.

A segunda categoria de tecnologia inclui procedimentos cujos benefícios são substanciais para alguns pacientes, mas não todos. Angioplastia, na qual um stent de metal é usado para sustentar abertos vasos sanguíneos bloqueados no coração, é muito custo-efetiva para pacientes com ataque cardíaco tratados dentro das primeiras 12 horas. Mas muito mais pacientes recebem o mesmo procedimento quando o valor para eles é menos claro. Porque o sistema de saúde dos EUA compensa generosamente a angioplastia seja ela usada corretamente ou não, o valor médio desta inovação é levada a quase zero.

A terceira categoria inclui tratamentos cujos benefícios são pequenos ou apoiados por pouca evidência científica. Estes incluem tratamentos cirúrgicos caros como fusão espinhal para dor nas costas, aceleradores de feixe de prótons para o tratamento de câncer de próstata, ou tratamentos agressivos para um paciente de 85 anos de idade com insuficiência cardíaca avançada. As evidências sugerem que não há nenhum valor médico extra conhecido para qualquer um destes em comparação com as alternativas mais baratas. No entanto, se um hospital constrói um acelerador de prótons USD$ 150 milhões, ele terá todos os incentivos para usá-lo tão frequentemente quanto possível, que se danem as evidências. E os hospitais estão se munindo com tais tecnologias, o número de aceleradores de prótons nos Estados Unidos está crescendo rapidamente.


Imagem: Portanto, não é apenas a "tecnologia" que está empurrando os crescentes custos de cuidados com a saúde, é o tipo de tecnologia que é desenvolvida, adotada e, em seguida, difundida através de hospitais e consultórios médicos. Grande parte do aumento da longevidade observada é gerada pela primeira das categorias de tratamento. A maior parte do crescimento da despesa é gerada pela terceira categoria, que o sistema de saúde dos EUA é especialmente e perversamente destinado a incentivar. Ao contrário de muitos países, os EUA paga por quase qualquer tecnologia (a quase qualquer preço) sem levar em conta o valor econômico. É por isso que, desde 1980, os gastos com cuidados com a saúde em percentagem do produto interno bruto cresceram quase três vezes mais rapidamente nos Estados Unidos, do que tem ocorrido em outros países desenvolvidos, enquanto a nação ficou para trás em aumento da expectativa de vida.

Outros pesquisadores descobriram que apenas 0,5 por cento dos estudos sobre novas tecnologias médicas avaliavam aquelas que funcionavam tão bem quanto as já existentes, mas que custavam menos. O isolamento quase completo de médicos e pacientes dos preços reais pagos por tratamentos garante uma terra estéril para estes tipos de idéias. Por que um paciente, totalmente coberto pelo seguro de saúde, se preocuparia se o implante de quadril caro é realmente melhor do que a alternativa que custa metade do preço? E por falar nisso, os médicos raramente ou nunca sabem o custo do que eles prescrevem e muitas vezes ficam chocados quando descobrem.

As implicações para a política de inovação são duas. Primeiro, devemos pagar apenas por inovações que valham a pena, mas sem bloquear o potencial de novas idéias menos estáveis ​​que possam ter potencial a longo prazo. Dois médicos, Steven Pearson e Peter Bach, sugeriram um meio termo, onde a Medicare cubriria tais inovações por, digamos, três anos e, então, se ainda não houvesse evidência de eficácia, a Medicare voltaria a pagar pelo tratamento padrão. Como muitas idéias racionais, esta pode ser vítima de lutas políticas internas em Washington, D.C. onde é controverso sugerir negar até mesmo tratamentos não comprovados para pacientes terminais.

Por esta razão, a melhor forma de a tecnologia poupar custos é se ela for usada para organizar melhor o sistema de saúde. Enquanto os EUA possam liderar o mundo no desenvolvimento de novas próteses ortopédicas caras, estamos muito atrás no descobrimento de como obter tratamentos para pacientes que querem e realmente podem se beneficiar deles. Isso requer uma maior ênfase na mudança organizacional, em inovações na ciência da prestação de cuidados à saúde e em preços transparentes para fornecer o estímulo certo. Isso significa diagnóstico via smartphones, tecnologia que pode ajudar os médicos e enfermeiros a entregar atendimento de alta qualidade, ou tampas de recipientes para medicamentocom detectores de movimento que permitem que uma enfermeira saiba quando o paciente não tomou a dose diária. Os benefícios globais da inovação na prestação de cuidados com a saúde poderiam exceder os decorrentes de dezenas de brilhantes novos dispositivos médicos.

Jonathan S. Skinner é Professor Presidencial James Freedman no Departamento de Economia, e professor no Instituto Dartmouth de Políticas de Saúde e Prática Clínica da Faculdade de Medicina Geisel, Dartmouth College.

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