Negócios

Porque os Editores não Gostam de Aplicativos

O futuro da mídia em dispositivos móveis não é com aplicativos, mas com a internet.

  • Terça-Feira, 08 de Maio de 2012
  • Por Jason Pontin
  • Tradução por Elisa Matte (Opinno)

Até o momento que a Apple lançou o iPad em abril de 2010, apenas quatro meses depois de Steve Jobs anunciar pela primeira vez o seu novo brinquedo "mágico e revolucionário" em San Francisco, os editores tradicionais estavam tomados por uma ilusão coletiva. Eles acreditavam que os computadores móveis com telas grandes, coloridas, como o iPad, iPhone e outros dispositivos semelhantes usando o software Android, do Google, permitiriam que eles deixassem para trás suas histórias infelizes com a Internet.

Fonte: Technology Review

Para os editores cujos negócios evoluíram durante o longo período dos jornais impressos e revistas, a expansão da Internet foi tremendamente desorientadora. A internet ensinou os leitores que eles podiam ler histórias sempre que eles quisessem, sem custo e ofereceu a empresas formas mais eficientes de anunciar. Ambas as partes gastaram menos. Tablets e smartphones pareciam prometer um retorno aos dias mais simples. Cópias digitais de jornais impressos e revistas (que podem ser lidas em navegadores da internet ou softwares como o leitor de PDFs, Adobe) nunca havia sido popular entre os leitores, mas os editores argumentaram que as cópias eram desagradáveis de ler em computadores desktop e laptops.

Os formatos de tablets e smartphones eram um pouco como uma revista ou jornal. Os editores não poderiam deleitar os leitores entregando algo semelhante a réplicas digitais existente, devidamente realçadas com recursos interativos, que são executados em aplicativos para tablets e smartphones? Eles argumentaram que as novas réplicas digitais seriam melhor porque os aplicativos correm "naturalmente" no sistema operacional de dispositivos móveis, como iOS, da Apple e podem, portanto, ter as funções de softwares de verdade. (Em contraste, um site é apenas uma série de páginas HTML e scripts de código de computador que são executados dentro de um navegador, que é na verdade o aplicativo. Os arquitetos da internet tinha intenções de fazer com que sites fossem mais limitados do que aplicativos.)

Para os editores tradicionais, o esquema era sedutor. Eles perderam a cabeça. O sintoma da euforia da indústria foi um gênero literário de breve duração: o anúncio da edição iPad. Um exemplo tocante dessa forma é esta carta de 2010 escrita pelos editores da revista The New Yorker, publicada pela Condé Nast, que correu em um estilo que foi estranhamente sem fôlego: "Esta recente tecnologia ... fornece a maioria do material na fase mais avançada de velocidade e capacidade digital. Tem tudo o que está na edição impressa e mais: caricaturas extras, fotografias extras, vídeos, áudio de escritores e poetas que lêem seus próprios trabalhos. A edição inaugural desta semana para tablet apresenta uma versão animada da capa de David Hockney, que ele desenhou em um iPad."

Os editores acreditaram que, porque eles foram mais uma vez entregando um produto único, discreto, semelhante a um jornal ou revista, eles poderiam cobrar os leitores por uma única cópia e até mesmo por assinaturas, reeducando o público que as publicações eram produtos pelos quais eles deveriam pagar. Eles se deixaram convencer de que a produção de conteúdo editorial para os aplicativos e o desenvolvimento dos aplicativos em si seria simples. Os fornecedores de software como o Adobe prometeram que os editores poderiam facilmente transferir editoriais criados em sistemas de gestão de impressão como o Adobe InDesign e InCopy diretamente para os aplicativos. E o desenvolvimento de software... bem, o quão difícil foi isso? A maioria dos editores tinham departamentos de desenvolvimento de internet: deixe os nerds construir os aplicativos.

Os editores esperavam que a velha economia da propaganda impressa pudesse ser ressuscitada. O Audit Bureau of Circulations (ABC), a organização da indústria que audita a circulação e informações de audiência para revistas e jornais ao redor do mundo, prometeu que iria considerar as réplicas dentro de aplicativos no cálculo "taxa base", uma medida do total de circulação de publicações, incluindo vendas por assinaturas e em bancas. A taxa base havia sido a métrica para fixar as taxas de publicidade em publicações antes do surgimento da palavra-chave e banners publicitários, que mede o numero de cliques e impressões de anúncios. A publicidade é o real negócio dos meios de comunicação, mas as editoras tradicionais não podem competir com o Google e as novas empresas de mídias na venda de anúncios digitais. Aplicativos iriam interromper esse declínio, levando a mídia de volta à sua estrutura históricamente adequada: editores poderiam vender versões digitais dos mesmos anúncios que apareceram em suas publicações impressas (talvez com uma margem de lucro se eles tivessem elementos interativos), valorizados com a medida antiga da taxa básica.

Expressa assim, a ilusão é bastante clara, mas eu mesmo sucumbi - pelo menos um pouco. Eu nunca acreditei que os aplicativos se desenrolariam na ruptura da minha indústria, mas eu senti que alguns leitores gostariam de ter uma copia com design muito bonito do Technology Review em seus dispositivos móveis e eu aposto que nossos desenvolvedores podem criar uma experiência melhor dentro de aplicativos móveis. Então nós criamos aplicativos para iOS e Android que eram livres para uso; qualquer pessoa poderia ler nossas notícias diárias e assistir os nossos vídeos e as pessoas podiam pagar para ver cópias digitais da revista. Lançamos as plataformas em janeiro de 2011. Elogiando a mim mesmo na minha contabilidade conservadora, eu previ uma renda menor que USD$125.000 no primeiro ano. Isso significava menos de 5.000 assinaturas e um punhado de vendas únicas. Fácil, pensei.

Como quase todos os editores, eu fiquei muito decepcionado. O que deu errado? Tudo.

A Apple exigiu uma parcela de 30 por cento sobre todas as vendas de cópia isoladas através de sua loja iTunes. As vendas de cópias isoladas tinham margens de lucro menores do que 30 por cento; editores estavam, então, pagando para a Apple vender suas edições. Muitos responderam não vendendo cópias isoladas de suas revistas. Então, por um ano após o lançamento do iPad, a Apple não conseguiu descobrir como vender assinaturas através do iTunes de forma que satisfizesse a ABC, o que requer que editoras preencham informações sobre satisfação de assinantes. Quando a Apple finalmente resolveu o problema de assinaturas para iPad no iTunes, ele alegou novamente a sua quota de 30 por cento. Desde junho do ano passado, a Apple permitiu que editores vendessem assinaturas através de suas próprias páginas da internet (um punhado de editoras, incluindo a Technology Review, gozaram do privilégio antecipadamente), mas o mecanismo não atendeu as facilidades de uso do iTunes e a maioria dos leitores não poderiam não ser incomodados para ajudar a compreender. E enquanto o Google foi mais razoável em seus termos, o Android surgiu como uma alternativa para o iPad: hoje, a maioria dos tablets é da Apple.

Haviam outras dificuldades. No final descobriu-se que não era simples adaptar publicações impressas para aplicativos. Uma grande parte do problema era a proporção das telas dos tablets: eles possuíam visualizações tanto em "retrato" (vertical) como "paisagem" (horizontal), dependendo de como o usuário segura o aparelho. Então, também, as telas de smartphones eram muito menores do que as de tablets. Absurdamente, muitos editores acabaram produzindo seis versões diferentes do seu produto editorial: uma publicação para impressão, uma réplica digital convencional para navegadores de internet e software, uma cópia digital para visualização em paisagem de tablets, algo que não era bem uma cópia digital para visualização em retrato para tablets, um tipo de prateleira para smartphones e páginas HTML comuns para seus sites. Desenvolvimento de software de aplicativos era muito mais difícil do que os editores haviam previsto, porque eles haviam contratado desenvolvedores para internet que conheciam tecnologias como HTML, CSS e JavaScript. Os editores ficaram espantados ao saber que aplicativos para iPads eram reais, e pequenas aplicações, a maioria escrita em uma linguagem chamada Objective-C, que ninguém em seus departamentos WebDev conhecia. Editores reagiram terceirizando o desenvolvimento de aplicativos, que era caro, demorado e não orçamentado.

Mas o problema real com aplicativos foi mais profundo. Quando as pessoas liam notícias e artigos sobre mídia eletrônica, eles esperam que as histórias possuíssem a conectividade da internet, mas histórias em aplicativos realmente não faziam ligação. Os aplicativos eram, no jargão da tecnologia da informação, "jardins murados" e embora às vezes bonitos, eles eram pequenos, sufocados jardins. Para os leitores, nada dessa beleza superou a estranheza e frustração de ler mídias digitais isolada de outras mídias digitais.

Sem muitos assinantes ou compradores cópia simples e sem audiências para vender para os anunciantes, não havia receita para compensar os custos incrementais de desenvolvimento de aplicativos. Com algumas exceções, portanto, as editoras desistiram de aplicativos. A exceção mais comumente citada é a Condé Nast, que viu suas vendas digitais aumentarem em 268 por cento no ano passado após a Apple lançar um aplicativo chamado iPad Newsstand que promoveu as edições para iPad da editora de New York. Ainda assim, mesmo 268 por cento de crescimento pode não estar dizendo muito em números totais. A mídia digital é um pequeno negocio para a Condé Nast. Por exemplo, a Wired, o mais digital dos títulos da Condé Nast, tem 33,237 assinaturas digitais, o que representa apenas 4,1 por cento da circulação total e 7,004 vendas de copias isoladas, que significa 0,8 por cento da circulação paga, segundo a ABC.

Hoje, a maioria dos proprietários de dispositivos móveis lêem notícias e artigos nos sites dos editores, que muitas vezes foram codificados para detectar e adaptar-se a telas menores, ou, se eles fazem uso de aplicativos, os aplicativos são glorificados leitores de RSS, como o Amazon Kindle, o Google Reader, Flipboard e os aplicativos de jornais como o Guardian, que pegam editoriais dos sites dos editores. Um estudo recente da Nielsen relatou que enquanto 33 por cento dos usuários de tablet e smartphones tinham baixado aplicativos de notícias nos últimos 30 dias, apenas 19 por cento dos usuários tinham pago por qualquer um deles. Os aplicativos pagos de editoras, caros de desenvolver, com a sua extravagante réplica digital, estão mortos.

Aqui, a história recente do Financial Times é instrutiva. Em junho passado, a empresa retirou seu aplicativo para iPad e iPhone do iTunes e lançou uma nova versão de seu site escrito em HTML5, que pode otimizar o site para o dispositivo que um leitor está usando e fornecer muitas características e funções que são semelhantes a aplicativos. Por alguns meses, o FT continuou a dar suportar para o aplicativo, mas em 1 de maio o jornal escolheu desativá-lo completamente.

E Technology Review? Vendemos 353 assinaturas através do IPAD. Nós nunca descobrimos como evitar a necessidade de projetar tanto versões paisagem quanto retrato da revista para o aplicativo. Perdemos 124.000 dólares terceirizando o desenvolvimento de software. Nós brigamos entre nós e pessoas deixaram a empresa. Houve um desgaste incontável de espírito. Eu odiei cada momento da nossa experiência com aplicativos, pois tentou impor algo fechado, velho e semelhante ao impresso em algo aberto, novo e digital.

No outono passado, mudamos todo o editorial de nossos aplicativos, incluindo a revista, para um leitor RSS simples em um rio de notícias. A gente jogou a réplica digital fora. Agora, estamos redesenhando a Technologyreview.com, que fizemos inteiramente livre para uso e nós vamos seguir o Financial Times no uso do HTML5, de modo que um leitor irá ver páginas da internet optimizadas para qualquer dispositivo, seja um computador desktop ou laptop, um tablet, ou um smartphone. E, então, vamos acabar com nossos aplicativos também.

Jason Pontin é editor-chefe e editor da Technology Review.

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