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Prossiga com Cuidado

Uma técnica promissora para a biologia sintética está repleta de riscos.

Kenneth Oye 19/08/2014

Kenneth Oye

Em organismos de reprodução sexuada, os genes normalmente têm 50 por cento de chance de serem herdados. Alguns genes desenvolveram naturalmente métodos para aumentar essas chances; estes são chamados "drivers genéticos". O genoma de quase todas as espécies que se reproduzem de forma sexuada contém drivers genéticos ativos ou remanescentes. Há dez anos, Austin Burt, do Imperial College London propôs projetar drivers que alteram genes em populações naturais de mosquitos. Mas a dificuldade em editar com precisão o genoma para criar drivers personalizados não deixou que Burt fosse adiante com seu projeto. Isso está prestes a mudar.

O recente desenvolvimento de uma poderosa ferramenta de edição de genoma chamada CRISPR / Cas9 permite que cientistas insiram, substituam, apaguem e regulem genes. Uma vez que a Cas9 pode cortar praticamente qualquer gene e funciona na maioria dos organismos, poderia, a princípio, ser usado para criar drivers genéticos em qualquer organismo que se reproduza de forma sexuada. Ensaios em laboratório com drivers de gene de leveduras e mosquitos criados usando a CRISPR estão sendo realizados. É muito provável que drivers de genes desenvolvidos para propósitos específicos estejam disponíveis nos próximos anos.

Diferentemente da maioria das aplicações da engenharia biológica, drivers genéticos têm o potencial de propagar alterações em populações inteiras de organismos com ciclos reprodutivos curtos. E isso gera um potencial para efeitos positivos e negativos poderosos. Drivers genéicos podem ser utilizados para dificultar a reprodução dos mosquitos transmitem malária e dengue, ou poderiam ser usados para suprimir populações de espécies invasoras, como a carpa asiática. Mas também poderiam ser mal utilizados - por exemplo, aumentando a capacidade de insetos de carrear doenças, ou suprimindo populações de cultivos economicamente relevantes ou gado.

Estou menos preocupado com esse tipo de má utilização deliberada do que com as consequências ambientais não intencionais. A verdade é que nós não entendemos completamente as interações entre os drivers genéticos e o ambiente, ou as possíveis mutações nos organismos portadores desses drivers.

Em julho, junto com outros pesquisadores do MIT, Harvard e outras instituições ao redor do mundo, eu publiquei um artigo na revista Science que recomenda 10 coisas que engenheiros biológicos, cientistas ambientais e analistas políticos precisam considerar antes de liberar drivers genéticos no ambiente. Dentre elas estão mais pesquisas para melhorar nossa compreensão das propriedades dos drivers e seus efeitos colaterais, das medidas necessárias para abordar os riscos identificados, e das possibilidades caso as avaliações iniciais estejam erradas.

Drivers genéticos não se encaixam em nenhum quadro regulamentar existente. Não há regulamentações ambientais que cubram o uso drivers genéticos de forma consistente ao redor do mundo. Então, a questão é que precisamos prosseguir com cautela. Cientistas precisam de tempo para avaliar os riscos e desenvolver planos de contenção. Legisladores precisam de tempo para avaliar as disposições regulamentares. E o público merece tempo para um debate informado.

Kenneth Oye é professor associado de ciência política e engenharia de sistemas no MIT.

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